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Revista de Investigación y  
Creación artística  
Extraordinario 6  
Febrero 2026  
Investigación  
ISSN: 2659-7721  
Topografias do Sentir: Corpo, Memoria e Vestígio entre Dança,  
Desenho e Videoarte  
Topographies of Feeling: Body, Memory and Trace at the Intersection of  
Dance, Drawing and Videoart  
Ana Margarida Tavares de Almeida  
Oliveira Pires  
Recibido 15/10/2025 Revisado 20/10/2025  
Aceptado 15/11/2025 Publicado 16/02/2026  
Faculdade de Belas Artes de Lisboa  
Rita Cândida Marques Gouveia  
Faculdade de Belas Artes de Lisboa  
ritamargouveia@gmail.com  
Resumo:  
Este artigo propõe uma reflexão sobre os modos como a criação artística pode funcionar como prática de  
investigação situada, sensível e crítica. A partir do projeto Topografias do Sentir, desenvolvido no âmbito de um  
programa de pós-graduação em Educação Artística, numa instituição universitária portuguesa, explora-se a interseção  
entre corpo, memória e imagem por via da improvisação, do desenho e da composição audiovisual.  
Ancorado numa metodologia artográfica (Barone & Eisner, 2012), o trabalho desenrola-se como prática de  
coautoria entre duas linguagens distintas dança e desenho convocando a criação partilhada como lugar  
epistemológico. O vídeo final, com cerca de quatro minutos, resulta da sobreposição de imagens de transição  
corporal, desenhos sobre papel vegetal e uma paisagem sonora composta com sons corporais e ambientais  
manipulados digitalmente. O resultado não visa representar um gesto, mas habitá-lo suspenso entre o que foi e o  
que poderia ter sido.  
A proposta dialoga com autores como Didi-Huberman, Lepecki e Rancière, mas também com práticas  
emergentes de pedagogia artística crítica (Sousa & Aristimuño, 2025). Articula ainda a discussão sobre coautoria,  
tecnologias acessíveis e desenho como rasto de pensamento encarnado. Alinhando-se com reflexões recentes  
publicadas na Afluir (Morillo, 2022; Gonçalves, 2023), o artigo propõe que a arte longe de ser apenas forma —  
pode ser também dispositivo de escuta, de questionamento e de presença crítica no campo educativo.  
Sugerencias para citar este artículo,  
Tavares de Almeida Oliveira Pires, Ana Margarida; Marques Gouveia, Rita Cândida (2026). Topografias do  
Sentir: Corpo, Memoria e Vestígio entre Dança, Desenho e Videoarte. Afluir (Extraordinario VI), págs. 101-111,  
TAVARES DE ALMEIDA OLIVEIRA PIRES, ANA MARGARIDA; MARQUES GOUVEIA, RITA  
CÂNDIDA (2026). Topografias do Sentir: Corpo, Memoria e Vestígio entre Dança, Desenho e Videoarte. Afluir  
(Extraordinario VI), febrero 2026, pp. 101-111, https://dx.doi.org/10.48260/ralf.extra6.246  
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Abstract:  
This article reflects on how artistic creation can operate as a situated, sensitive, and critical mode  
of inquiry. Drawing on the project Topografias do Sentir, developed within a postgraduate program in Art  
Education, at a Portuguese University, we explore the intersection of body, memory, and image through  
improvisation, drawing, and audiovisual composition.  
Grounded in an a/r/tographic methodology (Barone & Eisner, 2012), this work unfolds as a co-  
authored practice between two distinct but interwoven languages dance and drawing proposing  
shared creation as an epistemological space. The final video, approximately four minutes long, combines  
images of bodily transitions, hand-drawn elements on tracing paper, and a soundscape built from  
manipulated bodily and environmental sounds. The result does not aim to represent a gesture, but rather  
to inhabit it suspended between what was and what might have been.  
This proposal dialogues with authors such as Didi-Huberman, Lepecki, and Rancière, and also  
with emerging perspectives in critical artistic pedagogy (Sousa & Aristimuño, 2025). It further  
contributes to discussions on co-authorship, accessible technologies, and drawing as a trace of embodied  
thinking. In line with recent reflections published in Afluir (Morillo, 2022; Gonçalves, 2023), this article  
suggests that art far from being merely form can serve as a device for listening, questioning, and  
critical presence within educational contexts.  
Palavras-chave: dança, desenho, memoria, videoarte, a/r/tografia  
Key words: dance, drawing, memory, videoart, a/r/tography  
Sugerencias para citar este artículo,  
Tavares de Almeida Oliveira Pires, Ana Margarida; Marques Gouveia, Rita Cândida (2026). Topografias do  
Sentir: Corpo, Memoria e Vestígio entre Dança, Desenho e Videoarte. Afluir (Extraordinario VI), págs. 101-111,  
TAVARES DE ALMEIDA OLIVEIRA PIRES, ANA MARGARIDA; MARQUES GOUVEIA, RITA  
CÂNDIDA (2026). Topografias do Sentir: Corpo, Memoria e Vestígio entre Dança, Desenho e Videoarte. Afluir  
(Extraordinario VI), febrero 2026, pp. 101-111, https://dx.doi.org/10.48260/ralf.extra6.246  
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Introdução  
Topografias do Sentir é um projeto artístico-educativo que investiga as relações entre  
corpo, memória e imagem, tendo como ponto de partida a prática interseccional entre dança,  
desenho e som. Desenvolvido no contexto do Congresso Internacional MUSAA 2025, o projeto  
propôs-se a pensar a criação como ato de escuta e investigação, onde o gesto não se fecha na  
representação, mas abre caminhos para o sensível.  
Assumindo uma abordagem artográfica (Barone & Eisner, 2012), o projeto parte da  
experiência situada das autoras como artistas e educadoras, promovendo um percurso de  
coautoria que é, simultaneamente, processo de criação, reflexão crítica e construção de  
conhecimento. A prática artística aqui proposta não é ilustrativa nem decorativa, mas  
epistemológica: ela pensa, interroga e comunica por meios visuais, corporais e sonoros. Este  
artigo inscreve-se no diálogo com outras investigações comunitárias publicadas na Afluir, como  
Libro de artista y a/r/tografía (Balbín Castillo, 2024), que exploram práticas gráficas sensíveis e  
relações entre corpo, imagem e memória no universo artístico-educativo.  
Neste gesto de adaptação, emergiu um corpo de trabalho que não se limita a documentar a  
dança ou o desenho, mas que constrói um espaço poético de escuta e de reinscrição da perceção.  
O vídeo, com cerca de 8 minutos, combina imagem, som e palavra para gerar uma experiência  
imersiva, onde o traço desenhado se torna vestígio, o som torna-se pele, e o gesto ainda que  
ausente continua a vibrar.  
A investigação articula referências de autores como André Lepecki (2006), Susan Leigh  
Foster (2011), Ella Emanuele (2024), Georges Didi-Huberman (1992) e Elliot Eisner (2002),  
que ajudam a pensar o corpo como arquivo, o desenho como rastro do efémero e a imagem  
como presença interrogativa. Mais do que representar o que foi, o trabalho interroga o que pode  
ainda ser abrindo espaço para uma arte que se constrói entre o vivido e o possível, entre o  
real e o imaginado.  
Metas e objetivos  
Este projeto propõe uma investigação artística situada, na qual se explora o desenho como  
vestígio de um gesto dançado e como ativador de memória. Partindo da interseção entre práticas  
corporais, visuais e sonoras, o objetivo principal é compreender de que modo a criação artística  
pode operar como cartografia do sentir lugar onde memória, corpo e imagem se entrelaçam.  
Entre os objetivos específicos, destacam-se:  
Investigar o corpo como arquivo vivo, portador de gestos inscritos, esquecidos e  
reaparecidos, articulando conceitos de memória incorporada com práticas de improvisação;  
Explorar o desenho não como representação da dança, mas como extensão somática do  
gesto efémero linha que prolonga torções, silêncios, deslocamentos;  
Reconfigurar processos de criação artística num contexto educativo, cruzando os campos  
da dança contemporânea, da ilustração e da instalação sensorial, mesmo que no formato de  
vídeoarte;  
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Experimentar a vídeoarte como suporte poético-educativo, capaz de condensar presenças,  
fragmentos e camadas de tempo num mesmo plano visual-sonoro;  
Valorizar práticas acessíveis e tecnicamente simples, mostrando que a densidade  
conceptual e percetiva de um projeto não está condicionada ao uso de tecnologias complexas,  
mas à qualidade da escuta e da intenção;  
Assumir a coautoria como metodologia epistemológica, onde pensar, criar e dialogar se  
tornam formas indissociáveis de construção de conhecimento e de posicionamento ético na  
educação artística.  
Estas metas procuram afirmar a criação artística como forma legítima de investigação —  
uma investigação que se desenha com o corpo, se escuta com a pele e se pensa a partir do gesto  
que falta, da imagem que vibra e do som que insiste.  
Método de investigação/de trabalho/de sessões e instrumentos de  
investigação  
A metodologia adotada inscreve-se no campo da investigação baseada em artes (art-based  
research), com ênfase na artografia como prática investigativa onde o fazer artístico se entrelaça  
com a reflexão crítica e a escrita experiencial (Barone & Eisner, 2012). Este processo foi  
construído de forma colaborativa entre duas autoras com formações distintas dança e  
desenho e desenvolveu-se em espiral, alternando momentos de experimentação prática,  
partilha, montagem e análise poética dos materiais produzidos.  
O vídeo foi desenvolvido a partir de uma sequência de fotografias captadas em  
improvisações corporais. Em vez de registar poses finais ou movimentos icónicos, optou-se por  
fotografar momentos de transição instáveis, imperfeitos, abertos onde o gesto ainda está a  
ser. Estes frames foram depois combinados com desenhos produzidos pela segunda autora, não  
como ilustrações das fotografias, mas como partituras gráficas do que poderia acontecer a  
seguir. Os desenhos surgem, assim, como extensões somáticas do gesto: reverberações visuais  
da memória e do desejo.  
O processo de desenho ocorreu a partir da escuta atenta às imagens: não se tratou de  
copiar formas, mas de permitir que o corpo desenhante respondesse às sugestões rítmicas e  
espaciais presentes nas fotografias. Como refere Ella Emanuele (2024), “a dança pode ser  
entendida como um meio legítimo de desenho”. Esta abordagem foi também informada pela  
prática de Geisiel Ramos (2018), para quem o desenho é um registo tátil do corpo em ação —  
não um produto final, mas um vestígio permeável.  
A construção da paisagem sonora foi realizada em colaboração com o artista sonoro  
BM1KE, integrando gravações de sons corporais (respiração, fricção com o chão, passos),  
registos do ato de desenhar (grafite sobre papel), e sons ambientes manipulados digitalmente.  
Esta composição sensorial reforça a dimensão háptica do vídeo, convidando o público à escuta  
expandida como se os sons tocassem a imagem.  
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O vídeo final, com cerca de quatro minutos, foi editado com ferramentas acessíveis  
(Ableton Live, Movavi Video Editor Plus, e Spectrasonics Omnisphere) e estruturado como um  
tríptico sensorial: 1) corpo em transição; 2) traço em suspensão; 3) memória em reverberação. O  
ritmo da montagem não segue uma narrativa linear, mas propõe uma deriva: o tempo abranda,  
as imagens repetem-se, sobrepõem-se, ou se desvanecem.  
A documentação do processo foi realizada através de diário reflexivo, registo fotográfico,  
e trocas escritas entre as autoras. Estas camadas de memória visual, textual, sensorial —  
foram fundamentais para a construção da narrativa final e para a reflexão teórica que sustenta o  
artigo.  
Mais do que demonstrar um resultado ou ensinar uma técnica, esta metodologia propõe  
uma atitude: criar escuta, acolher o inacabado, habitar o gesto, pensar com as mãos. Como  
prática pedagógica, propõe um deslocamento da lógica da demonstração para a da presença e  
da representação para a reverberação.  
Resultados  
A transposição da proposta inicial uma instalação imersiva para o formato de  
vídeoarte resultou numa obra com cerca de quatro minutos que condensa, em imagens, sons e  
traços, as camadas sensíveis do gesto dançado. Esta adaptação não comprometeu a poética do  
projeto; pelo contrário, revelou novas possibilidades expressivas que potencializaram o que  
antes se desejava criar em presença física.  
O vídeo desenvolve-se em três partes, que evocam a estrutura da instalação original:  
Corpo em transição: planos fixos de momentos intermediários entre poses de dança. Não  
há sequência narrativa, mas instabilidade. O corpo surge fragmentado, em desequilíbrio, em  
pausa ativa. São imagens que captam o gesto por fazer nem início nem fim, apenas presença  
suspensa.  
Traço em suspensão: desenhos em grafite e lápis de cor sobre papel vegetal, digitalizados  
e justapostos às fotografias. As linhas não ilustram as imagens anteriores; propõem  
continuidades possíveis, trajetórias inventadas, bifurcações gestuais. São vestígios do corpo que  
observou, mas também do corpo que desejou mover-se para além da imagem.  
Memória em reverberação: sobreposição de imagem, som e ritmo que convida o público à  
escuta sensorial. Sons de respiração, grafite a riscar papel, passos, fricção, silêncio, compõem  
uma paisagem sonora que não narra, mas convoca. A montagem alterna entre foco e desfoque,  
repetição e desaparecimento, criando uma tensão entre o que se vê, o que se ouve e o que falta.  
Este conjunto constrói um espaço poético de escuta expandida, onde a imagem não  
representa, mas interroga. Em vez de encenar a dança, o vídeo evoca a sua ausência: o que não  
se vê, mas se pressente; o que não se diz, mas vibra na pele. É uma obra que não ensina uma  
coreografia, mas convoca uma escuta um gesto por dentro.  
Um dos principais resultados do projeto foi precisamente o desenvolvimento desta  
linguagem visual-sonora híbrida, onde o desenho atua como vestígio somático e a montagem  
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como escritura do tempo delicado. O vídeo tornou-se um espaço de reinscrição da memória  
incorporada não como reconstituição do passado, mas como ativação do presente.  
A receção ao vídeo durante o Congresso MUSAA, nos comentários pós-apresentação,  
destacou a sua capacidade de gerar ressonância emocional sem recorrer a discursos explicativos.  
Outro resultado significativo foi o reconhecimento, pelas próprias autoras, da importância  
do processo como território de investigação. Ao longo do desenvolvimento do vídeo, foram  
surgindo camadas de reflexão que não estavam previstas inicialmente como a discussão  
sobre os limites da representação, a escuta como gesto ativo e o desenho como política do  
inacabado. Estes “resultados imprevistos” foram documentados em diários de processo e  
integrados na análise que sustenta o presente artigo.  
Também a relação entre as autoras se revelou um resultado em si. A coautoria permitiu  
um cruzamento genuíno de linguagens dança e ilustração onde nenhuma se sobrepôs, mas  
ambas se deixaram contaminar. O desenho tornou-se mais gestual, mais tempo-corpo. O  
movimento, por sua vez, adquiriu densidade gráfica. Esta fusão resultou num objeto artístico  
que só poderia ter emergido da colaboração, e não da soma isolada de partes.  
Por fim, o uso de ferramentas acessíveis e não especializadas demonstrou que é possível  
criar uma obra de forte densidade poética com recursos mínimos desde que haja clareza na  
intenção e abertura à experimentação. Este dado tem relevância para o campo da educação  
artística, pois sinaliza caminhos alternativos para práticas criativas em contextos de poucos  
recursos.  
Topografias do Sentir não resultou apenas num vídeo: resultou num mapa etéreo de um  
processo. E os seus traços visuais, sonoros, relacionais permanecem como pontos de  
partida para futuras criações e investigações.  
Discussão  
A discussão em torno dos resultados obtidos com o projeto Topografias do Sentir permite  
evidenciar o modo como uma prática artística situada pode gerar conhecimento sensível,  
mobilizando não apenas a dimensão estética, mas também processos pedagógicos e  
investigativos significativos. Esta proposta insere-se na tradição da investigação baseada em  
artes (art-based research), em que a própria criação é tomada como lugar de pensamento, de  
escuta e de transformação.  
Um dos principais contributos do projeto foi demonstrar como a articulação entre corpo,  
desenho e tecnologia pode ativar formas de conhecimento que escapam à linguagem verbal ou  
conceptual. Como defende Elliot Eisner (2002), as artes tornam possível pensar aquilo que não  
é facilmente traduzível por outros meios, permitindo o acesso a domínios mais subtis da  
experiência. No caso deste projeto, foi o gesto interrompido, o traço que hesita, o som que vibra  
em silêncio, que constituíram os dados principais da investigação dados que não se explicam,  
mas que se vivem e reverberam.  
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Do ponto de vista da educação artística, o vídeo não é apenas um objeto final, mas um  
lugar de encontro entre o que foi vivido pelas autoras e o que é experienciado pelos  
espectadores. Cada fragmento visual ou sonoro pode ser relido, reativado ou continuado no  
corpo de quem assiste, cumprindo um papel pedagógico que vai além da transmissão: trata-se de  
uma provocação subtil, um convite à escuta expandida.  
A presença do corpo como território de conhecimento, defendida por Leticia Fayos Bosch,  
Belén Díez Atienza, Irene Covaleda Vicente e Pedro Zarzoso López (2025), é também central  
nesta discussão. O corpo, longe de ser reduzido a ferramenta performativa, é aqui entendido  
como arquivo vivo, como espaço de inscrição de memórias, afetos e gestos que desafiam  
linearidades e categorias fixas. A escolha por trabalhar com movimentos intermédios, gestos  
suspensos e desenhos do “ainda-não” reforça esta visão do corpo como potência em devir –  
mais do que representar o que foi, o projeto sugere o que pode vir a ser. Mesmo em contextos  
distintos, investigações como Olivar, cuerpo, identidad y territorio (Montoro et al., 2024)  
demonstram como corpo, identidade e território podem se entrelaçar em processos artísticos —  
algo que ressoa na nossa proposta de ativar memória corporal e paisagem sensível.  
Do ponto de vista metodológico, a prática artográfica revelou-se especialmente fértil.  
Trabalhar com base na experiência e na autorreflexividade permitiu construir um percurso  
investigativo permeável às contingências e às falhas. O facto de a instalação inicialmente  
prevista não ter sido realizada por motivos externos à equipa foi encarado não como  
fracasso, mas como matéria de reinvenção. A adaptação ao formato vídeo não só respeitou os  
princípios da proposta original como os ampliou, ao possibilitar novas relações entre imagem,  
som e espectador.  
Outro ponto de relevância prende-se com a acessibilidade da proposta. O uso de  
tecnologias domésticas, ferramentas digitais intuitivas e materiais simples demonstrou que  
projetos com densidade poética e investigativa não dependem de meios técnicos complexos.  
Esta dimensão é importante no contexto da educação artística, sobretudo em escolas ou  
instituições com recursos limitados, pois reforça a ideia de que a criação é antes de mais uma  
questão de intenção e de afinação intuitiva.  
Conforme exposto por Fayos Bosch (2025):  
“La propuesta… es la introducción del grabado como práctica artística en el aula para el  
desarrollo de actitudes creativas, de reflexión y análisis de los alumnos…”  
Este posicionamento aproxima-se do nosso esforço com Topografias do Sentir, onde o  
desenho atua como meio para ativar perceção, memória e pensamento crítico ilustrando  
como práticas gráficas simples, em contextos educativos, podem gerar experiências poéticas,  
inclusivas e reflexivas de grande potencial formativo.  
Por fim, o projeto evidencia a importância da coautoria como metodologia relacional. A  
criação a duas vozes implicou negociação constante, escuta mútua e confiança no processo. Esta  
dimensão relacional foi tão significativa quanto os produtos gerados: foi na entrelinha, na troca  
e na abertura ao gesto da outra, que se construiu grande parte do valor educativo e artístico do  
projeto. Como também sublinhado por Ana Sousa (2025), no âmbito do seu trabalho com arte e  
tecnologias em contexto educativo, a prática da criação artística pode constituir-se como um  
exercício de cocriação uma metodologia relacional que integra a reflexão crítica, a  
experimentação inspirada e a escuta colaborativa. Assim como em La educación artística en  
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México (Piña, 2023), que realça a necessidade de práticas artísticas críticas voltadas à formação,  
nosso desenho atua como dispositivo de reflexão e autoconstrução corporal em sala de aula.  
Esta perspetiva reforça a importância de processos partilhados, como os que fundamentaram  
Topografias do Sentir, em que a coautoria foi não apenas um meio operativo, mas também  
matéria epistemológica, onde pensar e criar se tornaram atos indissociáveis da presença da  
outra.  
Uma proposta complementar foi apresentada no mesmo congresso por Ana Sousa e Filipe  
Aristimuño (2025), que, através de uma oficina sobre inteligência artificial generativa,  
exploraram as potencialidades pedagógicas das deepfakes no ensino artístico. O seu trabalho  
propunha a criação de recursos educativos abertos como forma de estimular pensamento crítico  
sobre ética, identidade e cultura visual, sobretudo junto de públicos jovens sujeitos a  
dispositivos digitais e narrativas pós-verdade. Ainda que com enfoques distintos, partilhamos  
com este projeto a preocupação de integrar tecnologias emergentes num paradigma artístico-  
educativo que privilegia a experimentação, a autoria e a reflexão crítica. Tal como referem, “a  
criação artística é uma forma de pensar, que permite criar ao contrário de apenas reproduzir”  
(Aristimuño & Sousa, 2025). Também em Topografias do Sentir, desenhar e montar não foi  
apenas representar: foi interrogar, provocar, propor caminhos para pensar o corpo, o gesto e a  
memória como lugares de questionamento e ação educativa.  
Conforme destaca Jacques Rancière (2003), é nos intervalos, nos vazios e nas suspensões  
da imagem que reside o seu maior potencial poético e político. Em Topografias do Sentir, esta  
lógica manifesta-se na escolha deliberada por mostrar o gesto interrompido, o movimento em  
transição, o traço inacabado. O vídeo convida o espectador a habitar esse espaço dilatado entre o  
visível e o oculto entre o que se vê e o que ainda vibra. Tal como defende Rancière, não é na  
plenitude da imagem que se dá o acontecimento estético, mas naquilo que escapa ao olhar  
imediato, abrindo a possibilidade de pensar, imaginar e sentir com outras intensidades. Ao  
instaurar pausas, silêncios e sobreposições que dificultam a leitura linear, o projeto encena a  
própria condição da arte como espaço de intervalo e de escuta onde o gesto ausente tem tanto  
peso quanto o traço visível.  
Conclusões  
O projeto Topografias do Sentir permitiu desenvolver uma abordagem artística e  
investigativa centrada na escuta afinada, na atenção ao efémero e na valorização do gesto como  
rasto de pensamento. A articulação entre improvisação corporal, desenho e montagem em vídeo  
revelou-se fértil tanto no plano poético quanto no educativo. A prática artográfica demonstrou  
ser mais do que um método: foi um modo de estar e de criar em colaboração, onde fazer, refletir  
e ensinar se entrelaçaram organicamente.  
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A principal contribuição deste trabalho reside na exploração do desenho como vestígio de  
memória incorporada como partitura gráfica de gestos que já passaram, mas continuam a  
vibrar no presente. Este entendimento do traço como resíduo ativo, que convoca o corpo e o  
olhar do outro, oferece novas possibilidades para pensar a criação artística como prática  
educativa. Não se trata de representar movimentos já executados, mas de abrir espaço para que  
o movimento por vir se insinue, se imagine e se deseje.  
A coautoria, neste contexto, foi mais do que colaboração: foi matéria epistemológica. A  
troca constante entre as autoras, oriundas de campos distintos, gerou um objeto artístico plural e  
consciente onde as linguagens não se somam, mas se transformam mutuamente. Esta  
experiência reforça a importância de práticas educativas que valorizem a escuta, a presença e o  
pensamento-partilhado.  
Por fim, o projeto demonstrou que é possível criar experiências artísticas e educativas  
densas com recursos simples, desde que exista intenção, cuidado e espaço para o sensível.  
Topografias do Sentir não pretendeu ensinar passos nem ilustrar conceitos: pretendeu deixar  
rasto. E talvez seja isso que a arte pode fazer na educação abrir fissuras por onde a memória  
e o desejo possam entrar.  
Limitações do estudio e implicações para a investigação  
Apesar de ter atingido os seus principais objetivos, Topografias do Sentir enfrentou  
limitações que merecem ser reconhecidas: o projeto foi desenvolvido num contexto académico  
e num período curto, sem oportunidade de ser testado junto de diferentes públicos em ambientes  
escolares ou museológicos. Esta experimentação em contextos educativos reais seria  
fundamental para avaliar o impacto das práticas propostas na perceção, escuta e construção de  
pensamento crítico em alunos de diferentes faixas etárias.  
Ainda assim, o projeto abriu caminhos férteis para investigações futuras. Entre as linhas a  
aprofundar estão:  
- A replicação da proposta em oficinas presenciais ou híbridas, com foco em práticas  
intermodais de desenho e movimento;  
- A criação de recursos educativos abertos com base em vídeoarte sensorial;  
- A investigação sobre coautoria como método de aprendizagem estética e ética.  
Topografias do Sentir deixa, assim, mais perguntas do que respostas e é justamente aí  
que reside o seu potencial investigativo.  
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Referencias  
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Congresso MUSAA 2025]. Badajoz, Espanha.  
Didi-Huberman, G. (2013). Diante da imagem. Lisboa: Orfeu Negro.  
Rancière, J. (2003). O destino das imagens. Lisboa: Orfeu Negro.  
Eisner, E. W. (2002). The arts and the creation of mind. New Haven: Yale University Press.  
Emanuele, E. (2024). Dance as a medium for drawing (Dissertação de mestrado). University for  
Fayos Bosch, L., Díez Atienza, B., Covaleda Vicente, I., & Zarzoso López, P. (2025, abril). Un  
objeto didáctico transversal. Libro Artista [Comunicação apresentada no Congresso  
MUSAA 2025]. Badajoz, Espanha.  
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Performance/Foster/p/book/9780415596565  
Lepecki, A. (2006). Exhausting dance: Performance and the politics of movement. Routledge.  
Ramos, G. (2018). Traçando corpos: registro direto do meu corpo como experiência da ação  
do desenho pelo não olhar (Dissertação de mestrado). Universidade Federal da Bahia.  
Balbín Castillo, M. A. (2024). Libro de artista y a/r/tografía: una experiencia en la residencia  
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Afluir. Revista de Investigación y Creación Artística, 1(9), 1732.  
Montoro, M. I., Cueva Ramírez, M. L., Soto Moreno, E., & Villanueva Padilla, M. (2024).  
Olivar, cuerpo, identidad y territorio: Una investigación artística contemporánea desde la  
perspectiva de género para abordar la cultura del aceite. Afluir. Revista de Investigación y  
Piña, K. M. F. (2023). La educación artística en México. Afluir. Revista de Investigación y  
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RECURSOS TÉCNICOS  
Spectrasonics.  
(n.d.).  
Omnisphere  
[Software  
de  
síntese  
musical].  
Movavi. (n.d.). Movavi Video Editor Plus [Software de edição de vídeo]. Disponível